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A origem dos chamados jogos
de tabuleiro perde-se na noite dos tempos. Expedições
arqueológicas estão, ainda hoje, desvendando
mistérios a respeito de antigos jogos disputados
por egípcios, gregos, romanos e até por
povos mais antigos.
Mas antes de falar de jogos
de tabuleiro, falemos de jogos.
O homem é um jogador por
definição. Cunhou-se, inclusive, o termo
Homo ludens (Johan Huizinga) para se demonstrar
esta faceta humana. No livro do mesmo nome, um verdadeiro
estudo filosófico sobre jogos e a vida, chega
Huizinga inclusive a comparar os julgamentos e os tribunais
(além da guerra...) a jogos...
E de fato. Indago: o que não
é a guerra, senão um jogo de poder, entre
países e dirigentes? Os soldados são os
peões, o território o tabuleiro e o povo
o premio... ; não é o trabalho em geral,
senão um jogo, cujo resultado é sempre
o ganho financeiro (as vezes bem parco...) no final
do mês? Neste caso, se você jogar mal, é
despedido, ou seja, eliminado do jogo...; não
seria o casamento, um jogo, cujo premio é a felicidade
de um casal e sua prole? Aposta-se que um dos companheiros
está apto a fazer o outro feliz. Ganham os dois
envolvidos no jogo. Ou perdem os dois...
Os jogos, portanto, freqüentemente
são símbolos de luta, seja luta entre
homens ou contra obstáculos a serem transpostos,
segundo regras preestabelecidas.
Desde que o homem-macaco
desceu das árvores e passou a viver em sociedade,
luta ele para sobreviver, da melhor forma possível
e com o menor esforço que lhe for permitido.
Para tentar minimizar suas agruras
diárias na busca da sobrevivência, busca
o homo ludens a ajuda dos deuses, que deverão
se manifestar através de oráculos. Assim,
tenho que os primeiros jogos (sejam de tabuleiro
ou não) tinham por finalidade adivinhar os desejos
dos deuses. Imagine um deus controlando o resultado
de um lançamento de dados, e teremos a noção
exata do que pensava o homem primitivo.
Os "deuses-oráculos",
manifestavam-se através de "adivinhos"
ou "xamãs". E estes últimos,
em muitas religiões formalizadas, tinham por
símbolo uma "grade quadriculada" que,
obviamente nos remete aos atuais tabuleiros de jogos,
com suas "casas".
Uma outra interpretação,
feita pelo mesmo Nigel Pennick na obra citada, afirma
que mesmo o desenho de algumas cidades medievais, surgidas
em torno das "feiras", representariam tabuleiros,
citando como exemplo a cidade de Cambridgeshire na Inglaterra
(que se chamava, antigamente, Huntingdonshire), que
teria sua planta quadriculada derivada da feira de St.
Audrey, ainda realizada na semana do dia 17 de outubro,
festa de Santa Etheldreda.
Existem provas de que alguns jogos
de tabuleiro derivam de plantas de templos, claustros
sagrados e cidades santas, como é o caso da capital
real de Chou (China antiga) que teria o formado de um
tabuleiro com 64 quadrados.
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Desenho em antigo manuscrito
indiano, mostrando uma deusa com um tabuleiro
quadriculado - do livro "Jogos dos Deuses",
de Nigel Pennick - Ed. Mercuryo
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Planta da cidade de Thamugadi,
na Argélia, construída por romanos
no século II, a partir de uma grade de
12 por 12 quadrados
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De qualquer forma, o "quadrado"
é o símbolo da terra na iconografia cristã.
As auras de pessoas vivas eram retratadas, pelos primeiros
cristãos, como "quadrados".
É um símbolo estático,
contrapondo-se ao "circulo", símbolo
do movimento por excelência. Parece-me bem lógico,
portanto, que os TABULEIRO de jogos seja, habitualmente
quadrados: eles não se mexem e é sobre
eles que se desenvolve o jogo, geralmente através
de peças CIRCULARES, estas sim, móveis.
A simbologia do quadrado é
ampla, envolvendo os pontos cardeais, a limitação
(ao contrário do círculo que simboliza
o infinito).
A importância dos jogos é
tanta, que um dos tesouros de Éirinn (a Irlanda
primitiva) era um tabuleiro de um jogo chamado de "Brandubh".
No País de Gales, o tabuleiro de "Tawlbwrdd"
era símbolo dos juizados.
Quanto aos dados, há notícias
de que estes eram usados já pelos assírios,
com o nome de "Puru". Usava-se também
os "Astrágalos", ossos de alguns animais
que, além de servirem para jogos, serviam também
para a distribuição de cotas de herança,
divisão de rendas nos templos e para eleição
de oficiais governamentais.
Aliás o uso dos dados nas
adivinhações é explicado pelo seu
próprio nome, que deriva do latim "dadus",
uma forma do verbo "dar", significando "dado
pelos deuses".
Dados cúbicos foram encontrados
em sepulturas egípcias anteriores a 2.000 a.C,
da mesma forma que dados octaedros. Dados de 12 ou 20
lados, tem sido usados para prever a sorte. Na França
do século XVI, vendedores ambulantes de remédios
caseiros, para atrair fregueses, utilizavam-se de adivinhação
com dodecaedros.
Na Grécia antiga, jogava-se
o óstrakon (citado na "República"
de Platão), jogado por dois grupos, onde se atirava
ao ar um caco e conforme a face que caia para cima,
um grupo deveria perseguir outro.
Conhecidíssima a história
dos soldados que lançaram dados para ver quem
ficaria com as vestes do Cristo crucificado...
Em Madagascar, surge o jogo "Fanorona",
ou "Fanorone", utilizado para adivinhações,
pelos "mpsikidy" ou adivinhos. O jogo tem
este nome pois, originalmente, era jogado com sementes
da árvore Fano, uma espécie de acácia,
existente naquela ilha.
As palavras "lote" e "loteamento"
mantém o velho significado de um pedaço
de terra cuja propriedade foi decidida por meio de sorteio.
Resquícios destes oráculos
existem ainda hoje na consulta ao Tarô e no jogo
de búzios. O Tarô utiliza cartas
de um baralho especial para "ler a sorte",
dando ao consulente conselhos sobre o seu futuro. No
jogo de búzios, estes são lançados
e "lidos" pelo adivinho. Mas sempre há
a esperança da intervenção do destino,
indicando quais os caminhos a serem seguidos.
Ainda hoje atribuímos muito
de nossas vidas à sorte ou ao azar. Isto, parece-me
um reflexo ainda desse homem primitivo jogador...
No dizer de MAURO SOARES TEIXEIRA
e JARBAS SALES DE FIGUEIREDO, em sua obra "Recreação
para Todos" (Ed. Obelisco - 1970):
"Todos nós nascemos
com uma série de instintos nocivos à civilização
atual. O papel do jogo é o de nos desembaraçar
destas tendências anti-sociais".
Nesta mesma obra, os autores dividem
os jogos, segundo as funções humanas que
se desenvolvem com cada jogo:
- Jogos sensoriais: ação
dos aparelhos do sentido (cheirar, provar, escutar,
tocar, etc)
- Jogos psíquicos: exercícios
das capacidades mais elevadas (jogar sério, conter
o riso, brincar de estátua, etc)
- Jogos motores: é ação
dos músculos e coordenação dos
movimentos (engatinhar, saltar, jogo de bola, etc.)
- Jogos afetivos: desenvolvimento
dos sentimentos estáticos ou experiências
desagradáveis (desenho, escultura, música,
etc)
- Jogos intelectuais: jogos de dominó,
damas, rimas de palavras, charadas, adivinhações,
xadrez, etc).
Falemos agora dos jogos de
tabuleiro. Como defini-los e como classificá-los?
Parece-me que uma definição
simplista seria a de que jogos de tabuleiro
são todos aqueles disputados, por uma ou mais
pessoas, em uma base, o tabuleiro, seja de madeira,
metal, pedra, marfim, plástico, papelão
ou outro material, onde peças são movimentadas,
colocadas ou retiradas do tabuleiro, obedecendo a regras
pré-estabelecidas.
Poderemos classificá-los,
primeiramente como jogos intelectuais e, grosso modo,
em três categorias: aqueles em que conta exclusivamente
a sorte; aqueles em que o que conta é a perícia
e a inteligência do jogador; e aqueles em que
há um misto dos dois (e a meu ver, os mais interessantes).
São jogos de tabuleiro típicos:
xadrez, damas, gamão, alquerque, tablar, senat,
go, estes exemplos de jogos clássicos antigos;
War, Detetive, No Limite, Banco Imobiliário (Monopólio)
entre os jogos mais modernos. Entre estes incluo o jogo
Quinteto, baseado em um filme do mesmo nome,
do diretor Robert Altman, com Paul Newman, do ano de
1979.
Incluo entre os jogos de tabuleiro
antigos, o jogo da Mancala. Este, apesar de ser jogado
principalmente sobre um tabuleiro contendo doze buracos
(ou casas), dada a sua simplicidade, pode
ser jogado até mesmo em buracos feitos no chão,
ou sobre um pedaço de papel com as casas
desenhadas. Mas a sua estrutura é a de um jogo
de tabuleiros, conforme a descrição por
mim apontada.
Nos jogos de tabuleiro, sempre se
busca a dominação, ou através da
conquista de peças ou de territórios.
No xadrez e no jogo de damas, conquista-se peças
do adversário; no Go, conquista-se território;
na Mancala, conquista-se pedras que pertencem, inicialmente
aos dois jogadores (ou a nenhum deles, dependendo-se
do ponto de vista...); no gamão e na tábula,
busca-se a retirada das peças do tabuleiro, para
tanto se percorre território e elimina-se (momentaneamente,
é verdade...) as peças do adversário.
Em todos eles, porém, o que
se busca e a aniquilação do adversário;
é demonstrar que se é melhor que o oponente;
que se é mais rápido, ou mais esperto,
ou mais inteligente...
Esta é a finalidade essencial,
primordial e final do jogo: descobrir-se quem é
melhor.
Mas obviamente, essa descoberta
é relativa pois, encerrada uma partida, outra
terá início e aquele que perdeu pode vir
a ser o vencedor...
"Toda glória é
efêmera"
(Frase que era cochichada pelos escravos aos ouvidos
dos generais romanos durante as paradas)
CURIOSIDADE:
Durante a Segunda Guerra Mundial, o serviço secreto
britânico, através do MI-9, criou um sistema
para ajudar os prisioneiros de guerra aliados a fugirem
dos campos de concentração alemães.
Foram criadas "entidades filantrópicas"
falsas que enviavam mantimentos e outros produtos aos
prisioneiros. Assim, os prisioneiros passaram receber
dinheiro alemão, colocados em tabuleiros de jogos
de damas e "Monopoly" (nosso "Banco Imobiliário")
e mapas, impressos no verso de cartas de baralho.
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